{"id":2071,"date":"2017-07-31T00:00:07","date_gmt":"2017-07-31T00:00:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.glup.pt\/?p=2071"},"modified":"2017-07-31T00:00:07","modified_gmt":"2017-07-31T00:00:07","slug":"agape-simbolo-e-ritual-do-ser-solidario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.glup.pt\/web\/?p=2071","title":{"rendered":"\u00c1GAPE: S\u00edmbolo e ritual do ser solid\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Nota Introdut\u00f3ria<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todas as Pessoas certamente j\u00e1 experienciaram que as intera\u00e7\u00f5es que mantemos ao longo de toda a nossa exist\u00eancia, quer com os outros, quer com os objetos, cont\u00e9m uma complexa dimens\u00e3o simb\u00f3lica, pese embora, disso, n\u00e3o estejamos por vezes, muito conscientes. Muitos cientistas sociais, assinalando tal facto, caracterizavam o ser humano, embora algo redutoramente, como Homos Simb\u00f3lico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos aspectos, talvez, interessantes que se colocam ao nosso entendimento, nesta mat\u00e9ria, configura o reiterado h\u00e1bito, da participa\u00e7\u00e3o colectiva em antiqu\u00edssimos rituais sociais, relevando a partilha (de alimentos) numa refei\u00e7\u00e3o comum. Num determinado momento (precoce) do processo hist\u00f3rico cultural, num determinado tempo\/lugar do mundo antigo, at\u00e9 aos nossos dias, a dimens\u00e3o afectiva e espiritual associada a tal acto, t\u00e3o gratificante e t\u00e3o carregado de densidade simb\u00f3lica, para al\u00e9m da import\u00e2ncia e preserva\u00e7\u00e3o da subsist\u00eancia, contribu\u00eda (e contribui) para a exponencia\u00e7\u00e3o da coes\u00e3o grupal, de refor\u00e7o ao processo identit\u00e1rio, de estabelecer ou refor\u00e7ar, rela\u00e7\u00f5es de solidariedade, alian\u00e7a e amizade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contextos espa\u00e7o-temporais do processo simb\u00f3lico<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os diversos modelos e narrativas que intentam compreender a evolu\u00e7\u00e3o da humanidade, invariavelmente reportam (ao menos de forma impl\u00edcita), dois eixos orientadores, fundamentais da experi\u00eancia humana. Referimo-nos ao Tempo e ao Espa\u00e7o e est\u00e3o na base de inumer\u00e1veis representa\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas, reportando um esfor\u00e7o constante de apreender novos sentidos e significados da realidade existencial. Com efeito a refer\u00eancia a essa dualidade complementar, sobre cuja polissemia de sentidos e significados, quase(?) toda a aprendizagem se processou, ao longo da evolu\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-biol\u00f3gica e cultural da humanidade, constitui uma recorr\u00eancia not\u00e1vel. \u00c0 medida que se foi engendrando respostas adaptativas eficazes face aos desafios do ambiente, \u00e0 medida que nos fomos distanciando da animalidade origin\u00e1ria, \u00e0 medida que fomos necessitando de fornecer(novos) sentidos e significados ao que ainda era desconhecido &#8211; logo ainda inef\u00e1vel-, o processo primordial de elabora\u00e7\u00e3o do simb\u00f3lico, configurou desde sempre, um dispositivo cultural com um valor instrumental essencial de uma enorme versatilidade. Era preciso, era urgente, dar sentido e significado \u00e0s coisas que n os rodeavam e para as quais, ainda n\u00e3o se dispunha da palavra que as nomeasse. Nada mais pl\u00e1stico, nada mais flex\u00edvel que a linguagem metaf\u00f3rica e o pensamento simb\u00f3lico, para exprimir condensadamente, aquilo que n\u00e3o pudemos (ainda) descriminar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os cientistas sociais (algo redutoramente) nos seus debates, tenderam a privilegiar a fun\u00e7\u00e3o (do s\u00edmbolo) centrados quase exclusivamente em aspectos como a coes\u00e3o social e os complexos rituais; a preserva\u00e7\u00e3o das fronteiras sociais, ou ainda, as rela\u00e7\u00f5es entre comunica\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e\u00a0 metaf\u00f3rica e comunica\u00e7\u00e3o racional e anal\u00edtica; conhecimento e linguagem. Sem entrar em exerc\u00edcios de desbravamento conceptual, tem sido poss\u00edvel admitir, que, os s\u00edmbolos, n\u00e3o constituem uma realidade aut\u00f3noma, estando profundamente imbricados no processo cultural. Mas n\u00e3o apenas isso: \u00e9 igualmente admitido que, para surpreender tal versatilidade de sentidos e significados, torna-se necess\u00e1rio considerar a inclus\u00e3o de cada simboliza\u00e7\u00e3o (em cada momento do processo evolutivo &#8211; cultural), num sistema complexo, em que os s\u00edmbolos se reenviam interactivamente um aos outros, assumindo eventualmente novas dimens\u00f5es e perspectivas. Configura-se assim uma esp\u00e9cie de constela\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, constituindo um sistema aberto, em que cada s\u00edmbolo se encontra em interac\u00e7\u00e3o din\u00e2mica com outros, podendo transfigurar-se formal e semanticamente ao longo da dupla dimens\u00e3o espa\u00e7o\/tempo e exprimir-se numa narratividade infind\u00e1vel. A dualidade tempo-espa\u00e7o est\u00e1 de tal modo imbricada na totalidade do ser e do existir, que at\u00e9 a pr\u00f3pria etimologia do pr\u00f3prio verbo \u201cser ou estar\u201d, revela em si mesmo essa dupla dimens\u00e3o (ser\/temporal; estar\/espacial).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 neste sentido que Norbert Elias na introdu\u00e7\u00e3o da sua obra sobre Teoria\u00a0 Simb\u00f3lica (Ed. Celta, Oeiras,1994), referindo-se \u00e0 no\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o, afirma que \u201c&#8230;pode ser representada por conceitos como largura, profundidade, comprimento&#8230;\u201d, podendo constantemente actualizar-se e integrar-se em infinitos processos de simboliza\u00e7\u00e3o e metaforiza\u00e7\u00e3o, como facilmente se constatar\u00e1, se introduzirmos o conceito de dimens\u00e3o (integrando aquelas no\u00e7\u00f5es), tamb\u00e9m ele ponto de partida para novas especula\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas. O modo como se organiza o espa\u00e7o, as estrat\u00e9gias do ser humano, objectivando no espa\u00e7o, as representa\u00e7\u00f5es que engendra sobre a sua rela\u00e7\u00e3o com as coisas imateriais e com o mundo sens\u00edvel, deixa perceber que qualquer facto ou acontecimento, comporta dois modos de exist\u00eancia mutuamente interactivos: a realidade sens\u00edvel e a sua representa\u00e7\u00e3o mental, integrando as diversas formas de conhecimento, nomeadamente o conhecimento cient\u00edfico. Todavia, a explica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e racional de tal exist\u00eancia foi precedida do conhecimento simb\u00f3lico e do pensamento metaf\u00f3rico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A percep\u00e7\u00e3o de que a orienta\u00e7\u00e3o global de qualquer acontecimento no espa\u00e7o, implicaria igualmente a sua perspectiva no tempo, deve ter acontecido muito cedo na hist\u00f3ria da humanidade e certamente precedeu a sua explica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, o que remete para a representa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica primordial. Elias, na referida obra refere que \u201cEinstein descobriu que o nosso universo \u00e9 tetra-dimensional, tal n\u00e3o implica que de facto, a integra\u00e7\u00e3o dos meios de localiza\u00e7\u00e3o, ao n\u00edvel do tempo-espa\u00e7o, fosse desconhecida antes de Einstein a tornar explicita. Qualquer mudan\u00e7a no comprimento \u00e9 tamb\u00e9m uma mudan\u00e7a no tempo. \u00c8 dif\u00edcil admitir a ideia de que antes de Einstein, ningu\u00e9m teve jamais consci\u00eancia deste facto&#8230;\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda a realidade social e hist\u00f3rica cont\u00e9m-se indissociavelmente num tecido simb\u00f3lico: os actos e acontecimentos, individuais e colectivos (o trabalho, o consumo, o amor, a guerra, a festa, a produ\u00e7\u00e3o material e imaterial, as institui\u00e7\u00f5es, o poder, a religi\u00e3o e muito mais, com especial relev\u00e2ncia para a linguagem), existem socialmente, integrando um tecido simb\u00f3lico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso \u00e9 bem vis\u00edvel nas celebra\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas rituais, nomeadamente no \u00c1gape ou refei\u00e7\u00e3o ritual, colectivamente partilhada pelos membros de um grupo, relevando os significantes observ\u00e1veis nas diversificadas pr\u00e1ticas gestuais e verbais que integra: disposi\u00e7\u00e3o espacial hierarquizada, brindes e invoca\u00e7\u00f5es, comunica\u00e7\u00e3o predominantemente vertical, assimetria no poder discursivo, ordens e incita\u00e7\u00f5es para fazer ou a n\u00e3o fazer e muito mais. Para al\u00e9m disso, toda a ordem simb\u00f3lica, n\u00e3o se reduzindo a si pr\u00f3pria, n\u00e3o pode iludir a dimens\u00e3o funcional (racional) dessas complexas pr\u00e1ticas de refor\u00e7o do grupo, pela dilui\u00e7\u00e3o do \u201ceu\u201d no \u201cn\u00f3s\u201d. Em verdade valer\u00e1 a pena debater ou consciencializar, o seu papel de refor\u00e7o e actualiza\u00e7\u00e3o da comunh\u00e3o\/coes\u00e3o do grupo, restaura\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria, da solidariedade e do sentimento de perten\u00e7a, tanto mais relevante e necess\u00e1ria, quanto a persist\u00eancia de um sentimento impressivo de desagrega\u00e7\u00e3o dos relacionamentos sociais e de isolamento, nos tempos que correm. Daqui facilmente se infere a import\u00e2ncia da participa\u00e7\u00e3o de todos os membros de qualquer fraternidade no tipo de experi\u00eancia que o \u00e1gape proporciona, acrescendo o facto de que, incorporar o alimento comum, corresponde a introjectar (simbolicamente) a norma cultural sancionada pela colectividade. Numerosos eruditos assinalam este tipo de pr\u00e1ticas rituais em numerosos contextos culturais com especial relev\u00e2ncia para as religi\u00f5es, entre as quais a crist\u00e3, ou e ainda, nos rituais de morte. N\u00e3o nos deteremos nas muitas e diversificadas pr\u00e1ticas atinentes a este \u00faltimo aspecto, lembrando apenas o banquete (por vezes sumptuoso) ofertado pela fam\u00edlia de um defunto, verificado ainda hoje nas culturas anglo-sax\u00f3nicas, ao conjunto de vizinhos e amigos e o significado que isso representa, em termos de refor\u00e7o do estatuto social da fam\u00edlia do falecido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0gape e Amor<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na experi\u00eancia crist\u00e3, segundo o Novo Testamento e o Evangelista Jo\u00e3o, a ess\u00eancia do \u00e0gape releva de uma energia amorosa implicada na caridade e na solidariedade, cuja efectiva\u00e7\u00e3o permitiria a constru\u00e7\u00e3o do Reino de Deus. Em suma o \u201cpuro amor de deus\u201d. Em S. Paulo por sua vez, realizar a \u00e1gape, n\u00e3o apenas produz uma altera\u00e7\u00e3o do foro psicol\u00f3gico ou moral, mas igualmente uma transforma\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica. Neste contexto a ideia de amor crist\u00e3o, n\u00e3o refere propriamente um sentimento, ou um princ\u00edpio gnoseol\u00f3gico, mas mais uma ac\u00e7\u00e3o criadora do bem, conotado com um valor moral pr\u00e1tico, interventivo, de partilha e solidariedade, pressentido em muitos movimentos religiosos, desde os prim\u00f3rdios, at\u00e9 aos nossos dias. Enquanto termo b\u00edblico, o \u00e1gape, op\u00f5e-se \u00e1 ideia de \u201ceros\u201d, na medida em que aquele exclui o desejo de posse reflectindo o egocentrismo humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0A refei\u00e7\u00e3o ritual<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u00c1gape, no seu duplo modo de exist\u00eancia (enquanto representa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e realidade) deve ter sido objecto de (des)integra\u00e7\u00f5es e altera\u00e7\u00f5es de significado, ao longo dos s\u00e9culos, variando ao sabor dos contextos culturais, pelo que seria humanamente imposs\u00edvel dar conta da sua polissemia de significa\u00e7\u00f5es e sentidos.\u00a0 Mas independentemente dessas varia\u00e7\u00f5es e assumindo a diversidade de pr\u00e1ticas e simboliza\u00e7\u00f5es (a celebra\u00e7\u00e3o do funeral, a festa em honra dos mortos, ou das divindades, o banquete cerimonial em ritos de passagem, de inicia\u00e7\u00e3o ou propiciat\u00f3rio e finalmente na ceia crist\u00e3), \u00e9 ineg\u00e1vel o sentido essencial comum de tais pr\u00e1ticas, que em \u00faltima an\u00e1lise, remete para a afirma\u00e7\u00e3o vitoriosa de uma unidade do cosmos, sempre confrontado com as for\u00e7as desagregadoras do caos amea\u00e7ador. E isto vale tanto para o banquete tot\u00e9mico das culturas antigas, como para as ceias (\u00faltima refei\u00e7\u00e3o do dia) dos tempos apost\u00f3licos, com os participantes reunidos para a leitura dos evangelhos ou as ceias religiosas e das irmandades dos tempos modernos. Por exemplo, o ritual da Eucaristia ligada \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o da ultima ceia, ocorre com similitude face ao ritual ma\u00e7\u00f3nico do \u00e1gape, uma vez que se trata de uma comunh\u00e3o em nome de valores e princ\u00edpios admitidos por todos os membros participantes. A comida encontra uma raz\u00e3o substantiva, n\u00e3o na quantidade, mas na sua essencialidade e projec\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, porque o que \u00e9 ingerido igualmente por todos, obstaculiza a fragmenta\u00e7\u00e3o, recompondo e actualizando o \u201ctodo\u201d e por maioria da raz\u00e3o, a simpatia fraternal.\u00a0\u00a0\u00a0 No tempo das corpora\u00e7\u00f5es medievais (incluindo os ma\u00e7ons operativos), os oper\u00e1rios, muito provavelmente realizavam as suas pr\u00f3prias refei\u00e7\u00f5es em conjunto, no local onde trabalhavam, costume que de resto, deveria ser comum a todos os trabalhadores sobretudo se recuarmos no tempo. Sem d\u00favida que tal ocorr\u00eancia contribu\u00eda para a emerg\u00eancia de um sentimento agregativo ou de inclus\u00e3o do individuo no grupo. De resto, o s\u00edtio onde operavam (o local de trabalho ou a loja) reporta a no\u00e7\u00e3o de lugar na concep\u00e7\u00e3o da antropologia, ou seja, lugar vivencial de experi\u00eancias do quotidiano, lugar identit\u00e1rio e relacional, opondo-se \u00e0 ideia de n\u00e3o-lugar reportado \u00e0 no\u00e7\u00e3o oposta observ\u00e1vel nos s\u00edtios an\u00f3dinos e an\u00f3nimos, fragmentadores da experi\u00eancia humana, dos n\u00e3o lugares em que vivemos. Na mesma ordem de factos registe-se a etimologia francesa da palavra companheiro (coupain), ou do latim\u201dcompane\u201d, denotando o costume antigo, \u201cdaquele com quem partilho o p\u00e3o\u201d. Necessariamente que a ma\u00e7onaria especulativa adoptando novas pr\u00e1ticas e um renovado universo sem\u00e2ntico mais adaptado a novas realidades, veio acrescentando novas significa\u00e7\u00f5es, como por exemplo, os banquetes de lojas, inspirados na \u00e9poca pr\u00e9-revolucion\u00e1ria francesa em que os utens\u00edlios e pr\u00e1ticas se relacionam com significados militares. Nesta tradi\u00e7\u00e3o tudo o que estiver na mesa adopta os termos utilizados na artilharia como vinho (\u201cp\u00f3lvora forte\u201d), \u00e1gua (\u201cp\u00f3lvora fraca\u201d), copos (\u201ccanh\u00f5es\u201d), entre diversos outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota Final<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Especulando um pouco, \u00e9 poss\u00edvel que as concep\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas que consideram o \u00e1gape como um resultado da ingest\u00e3o de alimento, como elemento reparador\/ restaurador do corpo, enquanto totalidade f\u00edsica e ps\u00edquica. Um sistema org\u00e2nico carenciado, entra em r\u00e1pida entropia, pelo que a amea\u00e7a da fome deve ter sido pressentida como confronto com as for\u00e7as desagregadoras e ca\u00f3ticas geradoras de desequilibras pondo em causa a integridade do \u201cser\u201d. Mas n\u00e3o apenas. Lembremos que ao longo da hist\u00f3ria da cultura humana, a fome (e o intenso desequil\u00edbrio ps\u00edquico-biol\u00f3gico que provoca) surge sempre como possibilidade tang\u00edvel e assim sendo, na sua dramaticidade, a fome (ou a sua possibilidade), induz na experi\u00eancia da refei\u00e7\u00e3o em grupo, a solidariedade, a coes\u00e3o do colectivo, o refor\u00e7o de uma mem\u00f3ria e de uma identidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A passagem do micro ao macrocosmo surge ent\u00e3o, como inevitabilidade sendo a natureza do \u201calimento\u201d a varia\u00e7\u00e3o not\u00e1vel. No fundo o que se trata \u00e9, e sempre, de uma tentativa de utiliza\u00e7\u00e3o de dispositivos t\u00e9cnicos e culturais, no sentido de reposi\u00e7\u00e3o de equil\u00edbrios sempre amea\u00e7ados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E isto vale tamb\u00e9m para eventuais reflex\u00f5es sobre a ang\u00fastia da crise ampla e profunda dos nossos dias, em que o desequilibro entre o \u201cdar\u201d e o \u201creceber\u201d constitui recorr\u00eancia. Com efeito paralelamente e subjacente \u00e1 hist\u00f3ria econ\u00f3mica \u201ccl\u00e1ssica \u201cexiste um outro registo, sobre uma economia da \u201cd\u00e1diva\u201d em que a obriga\u00e7\u00e3o moral de dar, retribuir e partilhar o excesso, que os antrop\u00f3logos registam como o in\u00edcio primordial das trocas s\u00f3cio-econ\u00f3micas, foi pensada e exposta por uma enorme pl\u00eaiade de pensadores, fil\u00f3sofos e m\u00edsticos como o nosso Santo Ant\u00f3nio de Lisboa. Mas isso s\u00e3o desenvolvimentos que aqui n\u00e3o cabem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DISSE<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fernando Casqueira VM<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nota Introdut\u00f3ria Todas as Pessoas certamente j\u00e1 experienciaram que as intera\u00e7\u00f5es que mantemos ao longo de toda a nossa exist\u00eancia, quer com os outros, quer com os objetos, cont\u00e9m uma complexa dimens\u00e3o simb\u00f3lica, pese embora, disso, n\u00e3o estejamos por vezes, muito conscientes. Muitos cientistas sociais, assinalando tal facto, caracterizavam o ser humano, embora algo redutoramente, 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