{"id":2064,"date":"2017-07-31T00:00:40","date_gmt":"2017-07-31T00:00:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.glup.pt\/?p=2064"},"modified":"2017-07-31T00:00:40","modified_gmt":"2017-07-31T00:00:40","slug":"extremofilos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.glup.pt\/web\/?p=2064","title":{"rendered":"EXTREM\u00d3FILOS"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Estes microrganismos vivem e multiplicam-se em ambientes muito radioactivos, \u00e1cidos, alcalinos (de elevado PH), quentes, frios ou salinos, sujeitos a altas press\u00f5es, sem oxig\u00e9nio ou contaminados com metais t\u00f3xicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deste grupo faz parte uma bact\u00e9ria \u201cportuguesa\u201d com o nome pouco expressivo de NL19, rec\u00e9m-descoberta na antiga mina de ur\u00e2nio da Quinta do Bispo, em Viseu. Vive como peixe na \u00e1gua, no seio de lamas com elevadas concentra\u00e7\u00f5es de metais radioactivos e uma quase aus\u00eancia de nutrientes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m muitos destes microrganismos vivem dentro do corpo humano e, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, cada um de n\u00f3s transporta dez vezes mais extrem\u00f3filos do que c\u00e9lulas e cem vezes mais genes estranhos do que os seus pr\u00f3prios genes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 de admirar pois que, feitas as contas, se conclua, como o fez o investigador Adriano Henriques, coordenador da Divis\u00e3o de Biologia do Instituto de Tecnologia Qu\u00edmica e Biol\u00f3gica da Universidade Nova de Lisboa, que \u2018os seres vivos dominantes na Terra, em n\u00famero e diversidade, foram, s\u00e3o e ser\u00e3o as bact\u00e9rias\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 aqui que quero focar-me: ser\u00e1 que a consci\u00eancia, atributo exclusivo aos humanos, que se saiba, \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para nos considerarmos superiores aos outros organismos da Terra? Porque se analisarmos as coisas com isen\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 realista a import\u00e2ncia que nos atribu\u00edmos enquanto esp\u00e9cie quando, acidental ou fortuitamente, formos alvo de algum acidente de percurso que nos permita sobreviver como o fazem as bact\u00e9rias?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembremo-nos do destino que tiveram os grandes r\u00e9pteis, esp\u00e9cie aparentemente dominante no nosso planeta at\u00e9 h\u00e1 cerca de 50 ou 60 milh\u00f5es de anos quando, um asteroide ca\u00eddo na pen\u00ednsula do Iucat\u00e3o, provocou a sua extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando estive nesta regi\u00e3o do globo senti, calculo, a mesma rever\u00eancia do peregrino que vai a F\u00e1tima embora, no meu caso, sem o paradigma religioso, pois o desaparecimento dos grandes s\u00e1urios permitiu aos mam\u00edferos evolu\u00edrem ao ponto de hoje poder partilhar esta prancha convosco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ciclicamente, h\u00e1 uma esp\u00e9cie que aparenta ser mais bem-sucedida para vingar que as outras, mas se as coisas \u2018d\u00e3o para o torto\u2019 e h\u00e1 uma extin\u00e7\u00e3o em massa, a vida microbiana, que j\u00e1 existia mesmo antes de n\u00f3s fazermos parte da sua \u2018cadeia alimentar\u2019, ir\u00e1 encontrar seguramente um novo hospedeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com as informa\u00e7\u00f5es que dispomos, fic\u00e1mos tamb\u00e9m a saber que os esporos das bact\u00e9rias resistem a tudo. Uma col\u00f3nia gerada por uma \u00fanica bact\u00e9ria, um organismo unicelular, pode ter 10 mil milh\u00f5es de c\u00e9lulas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os esporos s\u00e3o uma forma de repouso em que o metabolismo bacteriano est\u00e1 inactivo, uma estrat\u00e9gia que lhes permite sobreviver a per\u00edodos durante os quais as condi\u00e7\u00f5es ambientais n\u00e3o permitem crescimento. As sementes das plantas s\u00e3o um exemplo bem conhecido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E como todos sabemos, mesmo n\u00e3o sendo jardineiros, a raz\u00e3o para isso \u00e9 n\u00e3o haver \u00e1gua, pois neste caso a \u00e1gua que existe dentro das c\u00e9lulas \u00e9 substitu\u00edda por minerais. Da\u00ed que, depois de as colocarmos na terra, a primeira opera\u00e7\u00e3o a fazer \u00e9 reg\u00e1-las para que acordem&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conclui-se ent\u00e3o que o esporo \u00e9 como uma pedra, um mineral que n\u00e3o tem actividade metab\u00f3lica. E logo que est\u00e1 em contacto com ela, d\u00e1-se o milagre: a vida surge!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perante isto, resta-nos aceitar a nossa presen\u00e7a na Terra como sendo uma das formas de vida que aqui se manifestaram e, provavelmente, n\u00e3o a mais importante, como muitos arrogam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste ponto conv\u00e9m lembrar que, na hora da nossa morte, n\u00e3o sendo n\u00f3s cremados, as bact\u00e9rias que nos v\u00e3o consumir at\u00e9 ao osso n\u00e3o entram de forma sub-rept\u00edcia no nosso caix\u00e3o; nem j\u00e1 l\u00e1 estavam tranquilamente \u00e0 nossa espera, a pedido do cangalheiro\u2026elas consomem-nos porque deix\u00e1mos de lhes dar comida por via da nossa exist\u00eancia funcional enquanto seres vivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E quando a nossa m\u00e1quina p\u00e1ra de os alimentar, comem a m\u00e1quina!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como disse Lavoisier, \u201cna Natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E ao acreditarmos na sua frase imaginamos hoje, mais de trezentos anos depois de ter sido morto na guilhotina, aos 50 anos, que foi transformado numa ra\u00e7\u00e3o \u2018gourmet\u2019 de alto teor enciclop\u00e9dico, alimentando os microrganismos que nos habitam em duas tranches, cabe\u00e7a e tronco, uma esp\u00e9cie de entrada e prato principal, o que fez com que, seguramente, a gera\u00e7\u00e3o de extrem\u00f3filos que se seguiu \u00e0 sua morte, fosse de natureza mais cientifica por via da assimila\u00e7\u00e3o dos seus neur\u00f3nios\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Especula\u00e7\u00f5es \u00e0 parte, pergunto: para onde v\u00e3o de seguida os nossos comensais depois de nos terem comido a carne e lambido o esqueleto? Ser\u00e1 que depois de morrermos, lhes proporcionamos a vers\u00e3o bacteriana da \u201cUltima Ceia\u201d?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pergunta chave deste racioc\u00ednio \u00e9 parecida e talvez t\u00e3o inc\u00f3moda como outra que vem sido feita h\u00e1 muitos muitos anos: \u201cO que \u00e9 que havia no Universo antes do Big Bang?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 que n\u00e3o nos comendo eles os ossos, e partindo do principio que nada mais h\u00e1 no caix\u00e3o para lhes servir de alimento, para onde \u00e9 que eles v\u00e3o de seguida? Canibalizam-se at\u00e9 ao \u00faltimo? E este \u00faltimo? Morre de fome?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez adorme\u00e7am numa letargia mineral, \u2018esporificados\u2019, \u00e0 espera da oportunidade de saltarem, microbioticamente falando, para o interior de outro ser vivo que lhes garanta o ressurgimento activo &#8211; n\u00e3o confundir com renascimento, pois n\u00e3o estavam mortos &#8211; pela janela da humidade do ar que respiramos, ou mesmo por contamina\u00e7\u00e3o benigna, simbi\u00f3tica, atrav\u00e9s da ingest\u00e3o de uma alface Bio nascida do estrume rico em azoto e f\u00f3sforo\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seja como for, conv\u00e9m interiorizar o facto de sermos n\u00f3s os hospedeiros dos verdadeiros \u2018senhores da Terra\u2019, e n\u00e3o o contrario; e que as in\u00fameras mortes por n\u00f3s infligidas aos nossos irm\u00e3os de esp\u00e9cie ao longo de toda a hist\u00f3ria da humanidade, mais n\u00e3o s\u00e3o que suprimentos cont\u00ednuos, e talvez a pedido, destes companheiros de viagem que n\u00e3o querem esperar muito tempo para se banquetearem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Soubemos recentemente da descoberta de f\u00f3sseis na Gronel\u00e2ndia datados de 3,7 mil milh\u00f5es de anos, 220 milh\u00f5es de anos mais velhos que os mais antigos vest\u00edgios de vida na Terra conhecidos at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que \u00e9 fascinante \u00e9 que as estruturas e a qu\u00edmica destes f\u00f3sseis, os estromat\u00f3litos, deixam pensar numa atividade microbiana 800 milh\u00f5es depois do nosso planeta nascer, anunciando-nos que j\u00e1 havia nessa \u201corigem biol\u00f3gica\u201d, um sinal \u201cde uma emerg\u00eancia r\u00e1pida da vida na Terra, trazendo-nos novas perspectivas sobre os ciclos qu\u00edmicos e as intera\u00e7\u00f5es rocha-\u00e1gua-micr\u00f3bios num planeta jovem\u201d, segundo cientistas da Universidade Nacional Australiana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica, indiv\u00edduos competem pelos recursos do meio ambiente, e tamb\u00e9m competem por oportunidades de reprodu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao reproduzirem-se com sucesso, passam adiante os genes que lhes deram vantagens no ambiente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 que a reprodu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um processo de c\u00f3pia exata; acontecem erros, as chamadas muta\u00e7\u00f5es. A maioria das muta\u00e7\u00f5es \u00e9 neutra, mas algumas podem conferir ligeira vantagem a\u00a0quem as desenvolve.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 medida que acumula muta\u00e7\u00f5es, a esp\u00e9cie vai-se modificando at\u00e9 chegar ao ponto de n\u00e3o poder mais reproduzir com os indiv\u00edduos da esp\u00e9cie original: \u00e9 assim que surge uma nova esp\u00e9cie.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A\u00a0reprodu\u00e7\u00e3o, na aus\u00eancia de metabolismo e c\u00f3digo gen\u00e9tico, d\u00e1-se de forma simples, atrav\u00e9s do rompimento do replicador. As duas partes que surgem de um rompimento continuam\u00a0o trabalho de crescer atrav\u00e9s da\u00a0absor\u00e7\u00e3o de blocos b\u00e1sicos para criar c\u00f3pias de si mesmos, o que de certa forma estabelece uma competi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os blocos nem sempre s\u00e3o montados de forma id\u00eantica, e as mudan\u00e7as surgem aqui e ali, o que ser\u00e1 equivalente \u00e0s muta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E ser\u00e1 que foi s\u00f3 o Tempo entre esse momento atr\u00e1s descrito e os dias de hoje que permitiu que cheg\u00e1ssemos \u00e0 consci\u00eancia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o e os outros Primatas que partilham a quase totalidade do nosso ADN? Aquilo que somos, a nossa \u00e1rvore geneal\u00f3gica, s\u00f3 \u2018recentemente\u2019 \u00e9 que criou o galho onde estamos. O que \u00e9 que nos afastou dos Chimpanz\u00e9s, Gorilas e Orangotangos, uma vez que evolu\u00edmos em conjunto?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 um momento, este, em que n\u00e3o podemos ignorar a presen\u00e7a do GADU.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meus QQII: n\u00e3o desperdicemos a d\u00e1diva que nos foi dada de pertencermos a algo que n\u00e3o estamos programados para compreender, mas sim para aceitar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 como o Amor: se algu\u00e9m o puder explicar, que o diga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Disse, VM!<\/p>\n<p>LVB, \u00a0MM da RL Cam\u00f5es<br \/>\n*Extrem\u00f3filo: \u00e9 o organismo que consegue sobreviver, ou at\u00e9 necessita mesmo de habitar em condi\u00e7\u00f5es geoqu\u00edmicas extremas, prejudiciais \u00e0 maioria das outras formas de vida na Terra. Os micr\u00f3bios s\u00e3o os extrem\u00f3filos mais conhecidos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estes microrganismos vivem e multiplicam-se em ambientes muito radioactivos, \u00e1cidos, alcalinos (de elevado PH), quentes, frios ou salinos, sujeitos a altas press\u00f5es, sem oxig\u00e9nio ou contaminados com metais t\u00f3xicos. Deste grupo faz parte uma bact\u00e9ria \u201cportuguesa\u201d com o nome pouco expressivo de NL19, rec\u00e9m-descoberta na antiga mina de ur\u00e2nio da Quinta do Bispo, em Viseu. 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