{"id":2013,"date":"2017-05-22T22:15:04","date_gmt":"2017-05-22T22:15:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.glup.pt\/?p=2013"},"modified":"2017-05-22T22:15:04","modified_gmt":"2017-05-22T22:15:04","slug":"maconaria-e-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.glup.pt\/web\/?p=2013","title":{"rendered":"Ma\u00e7onaria e Liberdade"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">01-Vivemos um per\u00edodo de celebra\u00e7\u00e3o (e reivindica\u00e7\u00e3o) de valores sociais, pol\u00edticos, econ\u00f3micos e culturais, que se firmam em princ\u00edpios universais desde h\u00e1 muito estabelecidos, como condi\u00e7\u00e3o de progresso civilizacional, entre os quais cumpre destacar a efetiva\u00e7\u00e3o do conceito de LIBERDADE.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta oportunidade, em que se evoca e festeja, a \u201cprimavera portuguesa do dia 25 de Abril de 1974\u201d, os 43 anos da liberta\u00e7\u00e3o dos presos pol\u00edticos encerrados no forte de Peniche, bem como, o tricenten\u00e1rio da Institui\u00e7\u00e3o Ma\u00e7\u00f3nica, parece ser a hora de instaurar, uma reflex\u00e3o sobre problemas globais, em conex\u00e3o com a problem\u00e1tica da LIBERDADE amplamente participada, n\u00e3o apenas retrospectiva, mas igualmente prospectiva, de um devir que sob certos aspectos, se afigura opaco, incerto, obscuro e amea\u00e7ador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quest\u00f5es complexas, quer estruturais ou conjunturais de dimens\u00e3o Global, \u2013 sociais, ecol\u00f3gicas, geoestrat\u00e9gicas, demogr\u00e1ficas e outras, que mal se resolvem (ou se resolvem mal), que se adiam ou se desenvolvem, num quadro de incertezas e de desequil\u00edbrios, contribuem para a exist\u00eancia de um sentimento amplo e difuso, de crise generalizada, face \u00e0 qual, tardam a surgir respostas adaptativas eficazes, tornando-se urgente, um debate compreensivo e criador de consensos actuantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 neste contexto que a problem\u00e1tica da Liberdade que (em Portugal) relevamos e celebramos, mas que preocupantemente falece noutros algures, poderia constituir estrat\u00e9gia concertada da Ma\u00e7onaria mundial, pois que sem ela, todos os discursos fundacionais da ideia de progresso, no qual se inscrevem os valores da liberdade, perdem acuidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cABRIL\u201d \u00e9 uma \u00f3ptima ocasi\u00e3o para relevar o confronto com uma dupla urg\u00eancia: por um lado reconstruir ou (repensar) as formas de organiza\u00e7\u00e3o da sociedade e das institui\u00e7\u00f5es,\u00a0 que desde h\u00e1 43 anos mostraram, serem afinal,\u00a0 as adequadas em ordem ao aumento da de autonomia, igualdade e liberdade da maioria dos cidad\u00e3os (Estado social e servi\u00e7os p\u00fablicos, direitos e leis laborais, pol\u00edticas de coes\u00e3o territorial, etc.) e por outro, construir as formas EFECTIVAS de integra\u00e7\u00e3o europeia e internacional, da economia e das inst\u00e2ncias pol\u00edticas, que melhor possam reverter o rumo de empobrecimento, subdesenvolvimento, as novas formas de colonialismo comercial e financeiro, com as consequ\u00eancias desagregadoras\u00a0 que se conhecem, bem como os discursos populistas e xen\u00f3fobos ( amea\u00e7adores das condi\u00e7\u00f5es de exerc\u00edcio das Liberdades), que grassam por essa Europa.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o obstante, parece consensual a assump\u00e7\u00e3o da Liberdade como condi\u00e7\u00e3o existencial da dignidade humana, cuja reivindica\u00e7\u00e3o no decorrer da hist\u00f3ria \u2013 desde os idos do iluminismo e at\u00e9 antes disso &#8211; nos leva hoje as urg\u00eancias preocupadas que aludimos acima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Independentemente das diversas ideologias e conceitos associados, recorrentemente, quando se problematiza a tem\u00e1tica da LIBERDADE, ocorre a afirma\u00e7\u00e3o genericamente aceite, da adop\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios e valores absolutos, com validade independente do tempo e do espa\u00e7o, ocorrendo intr\u00ednseca ou extrinsecamente do processo construtivo do ser humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">02-Actualmente tem ganho grande notoriedade, uma nova proposta te\u00f3rica, com base nos trabalhos de investiga\u00e7\u00e3o no campo das neuroci\u00eancias de Ant\u00f3nio Dam\u00e1sio (e outros), da qual torna-se poss\u00edvel extrair uma no\u00e7\u00e3o de Liberdade, em articula\u00e7\u00e3o com os complexos mecanismos organizadores das emo\u00e7\u00f5es e dos afectos, essenciais para a auto-preserv\u00e7\u00e3o dos organismos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">-Se (re)lermos Ant\u00f3nio Dam\u00e1sio obteremos com certeza, consci\u00eancia da import\u00e2ncia dos sistemas neuronais e dos mecanismos da mente, da sua correla\u00e7\u00e3o com os esquemas corporais e experiencias com o meio envolvente. Nesta perspetiva a liberdade \u00e9 referida, como um sentimento imperativo para uma rela\u00e7\u00e3o vivencial adaptativa, em termos de equil\u00edbrio e sentimento de satisfa\u00e7\u00e3o do ser, na densa rede dos diversos acontecimentos e experiencias com que se confronta e interioriza. A LIBERDADE seria assim, em si mesma, a condi\u00e7\u00e3o para a Sobrevida do organismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Noutros termos, a liberdade, para este autor, se bem o entendi, parece constituir uma resposta corp\u00f3rea comandada pelo c\u00e9rebro e seus neur\u00f3nios, que independentemente da vontade ou da consci\u00eancia humana, est\u00e1 inscrita num mapa complexo de mecanismos autom\u00e1ticos de sobrevida. Isso, quer dizer que Dam\u00e1sio, coloca em equa\u00e7\u00e3o, a experiencia do sentimento de Liberdade, como componente importante dos mecanismos biol\u00f3gicos de sobreviv\u00eancia. O sentimento de ser livre (e a LIBERDADE em si), constitui um tra\u00e7o profundo da mente humana e que est\u00e1 enraizado no pr\u00f3prio desenho do c\u00e9rebro e do genoma (permitindo o desenvolvimento desse c\u00e9rebro). A sua priva\u00e7\u00e3o compromete o equil\u00edbrio homeost\u00e1tico do ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">03- Naturalmente que as pessoas que privilegiam as propostas sociol\u00f3gicas do \u201cSER HUMANO SOCIALMENTE CONSTRUIDO E DETERMINADO PELAS CONDI\u00c7\u00d5ES CONCRETAS DA SUA EXIST\u00caNCIA\u201d, n\u00e3o se rev\u00eam muito, naquela perspetiva. Assim sendo a no\u00e7\u00e3o de Liberdade, em alternativa, obriga a considerar a situa\u00e7\u00e3o objectiva do sujeito no acesso ao exerc\u00edcio dessa mesma Liberdade. Isso pressup\u00f5e a import\u00e2ncia decisiva de complexos processos s\u00f3cio hist\u00f3ricos e culturais, que situam cada homem, cada ser, cada acontecimento, num dado espa\u00e7o e numa dada \u00e9poca hist\u00f3rica. Em verdade ele inclui-se numa matriz, a qual, admitindo a validade universal da LIBERDADE inerente a uma condi\u00e7\u00e3o essencial do ser humano, isso n\u00e3o exclui, antes imp\u00f5e, a redu\u00e7\u00e3o a uma qualquer relatividade espec\u00edfica de uma dada \u00e9poca e desenvolvimento cultural. Esta no\u00e7\u00e3o al\u00e9m de tornar poss\u00edvel o sentido e significado compreensivo da hist\u00f3ria e da evolu\u00e7\u00e3o social, parece ser igualmente compat\u00edvel com a no\u00e7\u00e3o de \u201cmonada\u201d no sentido de ser \u00fanico e irrepet\u00edvel e do caracter \u00f4ntico do sentimento de ser livre<strong>. <\/strong>Nestes termos a no\u00e7\u00e3o \u00f4ntica de LIBERDADE, reporta a especificidade fenomenol\u00f3gica de cada um sentir tal estado qualitativo em cada momento da exist\u00eancia e actuar (ou n\u00e3o), em conformidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">04-Mas como \u00e9 que povo ma\u00e7\u00f3nico, de um modo geral, independentemente das diversas obedi\u00eancias, poder\u00e1 fazer convergir o debate sobre o caracter \u00f4ntico e ontol\u00f3gico desse valor m\u00e1ximo e inalien\u00e1vel, (concebido desde os prim\u00f3rdios como condi\u00e7\u00e3o essencial) com a necessidade de obedi\u00eancia \u00e0 norma, \u00e0 regra e ao poder?<strong> Dir-se-ia que sem Liberdade ou suas restri\u00e7\u00f5es, confrontamos a dificuldade te\u00f3rica e pr\u00e1tica de admitir a concep\u00e7\u00e3o do ma\u00e7on como \u201ccidad\u00e3o, homem livre e de bons costumes, justo e perfeito\u201d e no limite, de conceber a pr\u00f3pria Ma\u00e7onaria. Talvez se possa acrescentar que, em primeiro lugar, o comportamento de qualquer ma\u00e7on, dever\u00e1 orientar-se por princ\u00edpios e valores universais como a Liberdade. Em suma, obedecer princ\u00edpios e n\u00e3o a pessoas! Em segundo lugar a coloca\u00e7\u00e3o destes valores num plano geral e abstrato, imp\u00f5e aos ma\u00e7ons a imperatividade de lutar pela Liberdade perante qualquer ditador concreto ou perante qualquer situa\u00e7\u00e3o ou tentativa de ditadura. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez seja ent\u00e3o interessante, recordar as asser\u00e7\u00f5es de Oliveira Marques, dentro de um esp\u00edrito algo positivista da hist\u00f3ria, ao conotar o conceito de P\u00c1TRIA como sin\u00f3nimo de LIBERDADE.<strong> \u201c\u2026Num PA\u00cdS onde o \u00f3dio, a ambi\u00e7\u00e3o e gan\u00e2ncia desmedida e s\u00f3rdida saem vencedoras, a inveja e a vaidade imperam, n\u00e3o pode haver liberdade\u2026\u201d<\/strong>. A P\u00e1tria assim concebida, atinente a um valor geral e abstrato, rompe de um s\u00f3 golpe com os sujeitos da hist\u00f3ria, com as condi\u00e7\u00f5es concretas da exist\u00eancia, com a especificidade das tradi\u00e7\u00f5es e da cultura, dos antepassados, da etnia, para a colocar identicamente e em abstracto, ao n\u00edvel de todas as outras PATRIAS, onde sejam respeitados as liberdades e os direitos b\u00e1sicos de todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qualquer cidad\u00e3o independentemente da sua origem ou pa\u00eds, sujeito a uma ditadura feroz ou amea\u00e7a da sua liberdade, poderia escolher doravante qualquer outro pa\u00eds (Estados Unidos, Fran\u00e7a, Inglaterra, etc.,) substituindo a no\u00e7\u00e3o nacionalista, pelo conceito transnacional. Era exatamente isto o que Fernando Pessoa se referia quando afirmava \u201c\u2026a na\u00e7\u00e3o \u00e9 a escola presente para a superna\u00e7\u00e3o futura: a Humanidade\u2026\u201d, manifestando a urg\u00eancia da supera\u00e7\u00e3o do preconceito, da supersti\u00e7\u00e3o e da intoler\u00e2ncia. Diga-se em abono da verdade que a Ma\u00e7onaria sempre preconizou ao longo dos seus trezentos anos de exist\u00eancia, uma luta premente pela LIBERDADE, tendo como denominador comum a caracter\u00edstica do ser livre sem peias e sem sujei\u00e7\u00f5es. Todavia as Constitui\u00e7\u00f5es iniciais previam a relativiza\u00e7\u00e3o do conceito e nas Constitui\u00e7\u00f5es de 1821, o cunho liberal da normatividade politica, inclu\u00eda a proibi\u00e7\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o de profanos absolutistas \u201cinimigos dos leg\u00edtimos representantes do povo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">05-Seguindo ainda Oliveira Marques, nos prim\u00f3rdios que antecederam as revolu\u00e7\u00f5es francesa e americana, a Liberdade era entendida em termos gen\u00e9ricos, tanto para os cidad\u00e3os como para os ma\u00e7ons em particular, como uma prerrogativa do \u201ccaracter social e laboral do homem livre, podendo dispor, sem constrangimentos da sua pessoa\u201d. Gradualmente o conceito foi-se ampliando para uma perspetiva de subsun\u00e7\u00e3o do comportamento livre \u00e0 norma jur\u00eddica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com efeito, revendo a hist\u00f3ria dos ideais ma\u00e7\u00f3nicos desde o per\u00edodo iluminista, verifica-se que, por volta do final do s\u00e9culo XVIII, a no\u00e7\u00e3o de LIBERDADE viria sendo associada \u00e0 ideia do cidad\u00e3o como, devedor de obedi\u00eancia e fidelidade ao PODER LEG\u00cdTIMO<strong>,<\/strong> compatibilizando o ideal da liberdade ma\u00e7\u00f3nica, com a restri\u00e7\u00e3o e constrangimento, imposto pelo edif\u00edcio legal a que, igualmente, todo o Ma\u00e7on se deveria sujeitar. Todos os textos, at\u00e9 aos nossos dias, insistindo paralelamente, na toler\u00e2ncia, inclu\u00edram sempre \u00e1 cabe\u00e7a verdadeiros c\u00f3digos de conduta \u00e9tica e moral, pol\u00edtica e religiosa, a par da insist\u00eancia da no\u00e7\u00e3o de LIBERDADE.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">06- Para um correto entendimento da hist\u00f3ria da Ma\u00e7onaria (sec XVIII e seguintes), urge ter em considera\u00e7\u00e3o diversos factores, como o cruel e profundo conflito pol\u00edtico e religioso, ao longo do intermin\u00e1vel processo da reforma e contra-reforma, as eternas lutas entre protestantes e cat\u00f3licos, quer nas guerras dos trinta anos, quer nas guerras jacobitas, em Inglaterra (parlamentarismo liberal contra absolutismo), etc.\u00a0\u00a0 As consequ\u00eancias religiosas e politicas, as tens\u00f5es entre as proibi\u00e7\u00f5es e as exig\u00eancias de liberdade (de pensamento, liberdade religiosa, de express\u00e3o, etc), prolongar-se-\u00e3o no tempo e face \u00e0s quais a ma\u00e7onaria n\u00e3o se pode eximir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa \u00e9poca, a no\u00e7\u00e3o de LIBERDADE, tinha particular incid\u00eancia, no plano religioso, j\u00e1 que nas lojas conviviam eventualmente obreiros de diversas confiss\u00f5es, as quais, reflectindo os princ\u00edpios liberais, contrariavam a unicidade cat\u00f3lica dessa \u00e9poca, levando \u00e0 emiss\u00e3o de diversas Bulas Papais condenat\u00f3rias e persecut\u00f3rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">-Desde cedo a liberdade religiosa plasmava a liberdade de consci\u00eancia, bem como a liberdade civil, e todos os dicion\u00e1rios da ma\u00e7onaria consagram a sua superlativa import\u00e2ncia em correspond\u00eancia com a luta pela emancipa\u00e7\u00e3o individual e colectiva dos povos, desde sempre apadrinhada pela Ma\u00e7onaria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">07-Mas os desenvolvimentos da Institui\u00e7\u00e3o ma\u00e7\u00f3nica (estudados pelos historiadores), no per\u00edodo da elabora\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o das Ordena\u00e7\u00f5es de Anderson, relevam o papel deste question\u00e1vel e intrigante personagem, bem como, a gradual instaura\u00e7\u00e3o da hegemonia anglo sax\u00f3nica nos graus simb\u00f3licos e do REAA pelos EUA. A obrigatoriedade do reconhecimento das OBEDIENCIAS, abrigando uma poss\u00edvel contradi\u00e7\u00e3o, na relativiza\u00e7\u00e3o do conceito de AUTONOMIA, LIBERDADE de ac\u00e7\u00e3o e op\u00e7\u00e3o religiosa. N\u00e3o escapando ao ju\u00edzo cr\u00edtico dos analistas, reconhece-se que Anderson, ao omitir o grave e profundo conflito no interior das lojas, entre apoiantes da casa da Hannover e os de James III, enfatizou em contrapartida, a lealdade e a natureza pac\u00edfica dos membros da A:. O:..Ele inspirou-se no fil\u00f3sofo Jonh Locke, circunscrevendo o conceito de liberdade, subordinada \u00e0 observ\u00e2ncia da lei, dado que esta teria por miss\u00e3o justamente preservar e aumentar a Liberdade, paralelamente, impondo os princ\u00edpios religiosos e morais\u00a0 judaico-crist\u00e3os, n\u00e3o se salvaguardando\u00a0 o direito de em certas circunst\u00e2ncias, se aceitar ou n\u00e3o tal imposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a007- Talvez seja interessante, para complemento da reflex\u00e3o que se prop\u00f5e, chamar \u00e1 cola\u00e7\u00e3o o sefardita e grande fil\u00f3sofo portugu\u00eas Bento SPIN OZA, justamente no contexto da liberdade religiosa, cuja problem\u00e1tica, insistimos, est\u00e1 presente nos prim\u00f3rdios da moderna ma\u00e7onaria. Ele descreve uma estranhamente moderna (p\u00f3s-moderna, diria) no\u00e7\u00e3o de religi\u00e3o e de Deus e que pode ser transposta, quanto a mim, para a dicotomia liberdade e submiss\u00e3o, ou liberdade e poder tir\u00e2nico (seja ele qual for).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na \u00f3tica de uma liberdade religiosa e de pensamento filos\u00f3fico, que mesmo na Holanda n\u00e3o foi objeto de pac\u00edfica toler\u00e2ncia, quer no seio dos protestantes holandeses, quer mesmo entre a importante e elitista col\u00f3nia de sefarditas portugueses, SPINOZA escreveu assim, contra o dogmatismo e a concep\u00e7\u00e3o de um Deus dominador e institucionalizado pelo Catolicismo Romano:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c\u2026 P\u00e1ra de ficar rezando e batendo no peito. O que eu quero que fa\u00e7as, \u00e9 que saias pelo mundo e desfrutes da tua vida. Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que EU FIZ PARA TI. <strong>P\u00e1ra de ir a esses templos l\u00fagubres, obscuros e frios que tu mesmo constru\u00edste e que acreditas ser a minha casa<\/strong>. <strong>A minha casa est\u00e1 nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. A\u00ed \u00e9 onde EU vivo e a\u00ed expresso meu amor por ti.<\/strong>\u00a0 P\u00e1ra de me culpar da tua vida miser\u00e1vel. EU nunca te disse que h\u00e1 algo de mau em ti ou que eras um pecador\u2026N\u00c3O ME CULPES POR TUDO O QUE TE FIZERAM CRER.\u00a0 P\u00e1ra de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada t\u00eam a ver comigo. <strong>Se n\u00e3o me podes ler, num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filho\u2026n\u00e3o me encontrar\u00e1s em nenhum livro<\/strong>. Confia em mim e deixa de me pedir. N\u00e3o me queiras dizer como fazer o meu trabalho<strong>. Para de ter tanto medo de mim. Eu n\u00e3o te julgo nem te critico, nem me irrito, nem me incomodo, nem te castigo<\/strong>. <strong>EU sou puro amor.<\/strong> <strong>P\u00e1ra de me pedir perd\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 nada a perdoar. Se eu te fiz, te enchi de paix\u00f5es, de limita\u00e7\u00f5es, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoer\u00eancias, de livre arb\u00edtrio. Como posso te culpar se respondes a algo que eu coquei em ti?<\/strong> <strong>Como te posso castigar por seres como \u00e9s, se EU sou quem te fez?<\/strong> Cr\u00eas que eu poderia criar um lugar para queimar todos os meus filhos que n\u00e3o se comportem bem, para o resto da eternidade? Que tipo de Deus pode fazer isso? Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei, essas s\u00e3o artimanhas para te manipular, para te controlar, que s\u00f3 geram culpa em ti. Respeita o teu pr\u00f3ximo e n\u00e3o fa\u00e7as o que n\u00e3o queiras para ti. O que te pe\u00e7o \u00e9 que prestes aten\u00e7\u00e3o \u00e1 tua vida, que teu estado de alerta seja o teu guia. Esta vida \u00e9 a \u00fanica que h\u00e1 aqui e agora e \u00e9 a \u00fanica que precisas. <strong>EU TE FIZ ABSOLUTAMENTE LIVRE \u2026tu \u00e9s absolutamente livre para fazer da tua vida um c\u00e9u ou um inferno<\/strong>. N\u00e3o te poderia dizer se existe algo depois desta vida, mas posso dar-te um conselho. VIVE COMO se esta vida fosse a tua \u00fanica oportunidade de aproveitar, de amar, de existir. Assim se n\u00e3o houver mais nada ter\u00e1s aproveitado a oportunidade que te dei\u2026e se houver tem a certeza que eu n\u00e3o te vou perguntar se foste bem-comportado ou n\u00e3o.\u00a0 <strong>P\u00e1ra de crer em mim&#8212;crer \u00e9 supor, adivinhar, imaginar. EU N\u00c3O QUERO QUE ACREDTES EM MIM, QUERO QUE ME SINTAS EM TI\u2026.<\/strong> <strong>Quero que me sintas em ti quando beijas a tua amada, quando acaricias a tua filhinha, quando apoias algu\u00e9m necessitado\u2026<\/strong>e expressa a tua alegria. Esse \u00e9 o jeito de me louvar. P\u00e1ra de me louvar e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim. A \u00fanica certeza \u00e9 que est\u00e1s aqui, que est\u00e1s vivo, e que esse mundo est\u00e1 cheio de maravilhas\u2026<strong>N\u00c3O ME PROCURES FORA. Procura-me dentro de ti, pois \u00e9 a\u00ed que estou&#8230;\u201d<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este texto, poderia certamente, ainda hoje, incentivar coment\u00e1rios sobre a liberdade religiosa, justamente uma das quest\u00f5es s substantivas na ma\u00e7onaria desde os seus prim\u00f3rdios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">08-Qualquer reflex\u00e3o sobre Liberdade, convoca imediatamente quest\u00e3o da IGUALDADE e da DEMOCRACIA, como condi\u00e7\u00e3o absoluta daquela. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel conceber alcan\u00e7ar uma vis\u00e3o compreensiva em separado. N\u00e3o se pretende aqui indagar o motivo da persist\u00eancia de uma desigualdade econ\u00f3mica e social, nem sequer elaborar um relance sobre a quest\u00e3o UT\u00d3PICA de uma sociedade harmoniosa perfeitamente igualit\u00e1ria quando as leis da cultura e da biologia demonstram o processo natural de descrimina\u00e7\u00e3o e diferencia\u00e7\u00e3o crescente, de qualquer realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para que uma sociedade perfeitamente harm\u00f3nica, igualit\u00e1ria se mantivesse ter\u00edamos igualmente de enfrentar a completa disfuncionalidade de uma sociedade completamente est\u00e1tica onde nada teria que mudar, e onde os homens tenderiam uniformidade. Ou seja; onde os humanos deixariam de ser humanos porque teria desaparecido a diversidade de desejos, ambi\u00e7\u00f5es ou concep\u00e7\u00f5es, que nos distinguem. A hist\u00f3ria humana \u00e9 o retrato da multiplicidade de valores, das desigualdades inevit\u00e1veis pela simples raz\u00e3o de que somos desiguais na estrutura gen\u00e9tica, na fam\u00edlia em que crescemos, na sa\u00fade que usufru\u00edmos ou n\u00e3o, no trabalho que realizamos ou na pregui\u00e7a em que ocupamos o tempo. Li em tempos uma frase que eventualmente dar\u00e1 que pensar A MORTE DOS LOBOS SER\u00c1 IGUALMENTE A MORTE DOS CORDEIROS ou seja a morte dos obst\u00e1culos e constrangimentos \u00e0 igualdade\/liberdade seria a morte do fortalecimento da resili\u00eancia necess\u00e1ria para vencer tais obst\u00e1culos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isto passando de lado pelo facto da incongru\u00eancia da exist\u00eancia de outros valores que poder\u00e3o mutuamente anular-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, n\u00e3o bastar\u00e1 afirmar que a lei deveria tratar todos por igual na defesa da liberdade, garantindo as condi\u00e7\u00f5es onde o cidad\u00e3o poderia actuar (ou n\u00e3o), sem abordar a quest\u00e3o das capacidades que qualquer dever\u00e1 possuir para o exerc\u00edcio da sua liberdade. A AFIRMA\u00c7\u00c3O DE SER LIVRE n\u00e3o ser\u00e1 suficiente para a sua efectiva\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 a penas a dimens\u00e3o pol\u00edtica que poder\u00e1 oprimir a santa Liberdade. A Educa\u00e7\u00e3o e iliteracia, a pobreza, a doen\u00e7a, a inseguran\u00e7a, e mais. Uma sociedade livre \u00e9 igualmente uma sociedade justa, ela n\u00e3o \u00e9 pens\u00e1vel sem incluir a distribui\u00e7\u00e3o equitativa de bens sociais prim\u00e1rios (riquezas, oportunidades) capazes de emancipar os humanos de tudo o que \u00e1 partida os limita. Mas isto, conduz-nos a outras problem\u00e1ticas que n\u00e3o abordaremos, entre as quais o papel do ESTADO (Social). Afirmamos, no entanto, que os direitos sociais da cidadania, a par da garantia dos direitos civis e pol\u00edticos, s\u00e3o essenciais para o regular funcionamento das democracias representativas. Mas igualmente afirmamos que numa sociedade democr\u00e1tica, a aus\u00eancia de recursos materiais \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o para o combate \u00e1s desigualdades e para a promo\u00e7\u00e3o e exerc\u00edcio da liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo muitos, enquanto n\u00e3o forem radicalmente solucionados os problemas da pauperiza\u00e7\u00e3o crescente (veja-se as crescentes desigualdades na distribui\u00e7\u00e3o dos rendimentos, mesmo em sociedades pr\u00f3speras), renunciando ao dom\u00ednio quase absoluto dos mercados e da especula\u00e7\u00e3o financeira e n\u00e3o se atacar as causas estruturais da desigualdade social, os problemas do mundo n\u00e3o ser\u00e3o resolvidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certamente que estas considera\u00e7\u00f5es colocam a t\u00f3nica na necessidade de uma consciencializa\u00e7\u00e3o crescente destes e doutros problemas conexos com a liberdade, a democracia, e a desigualdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">09-Uma amea\u00e7a \u00e1 liberdade e \u00e1 democracia de que se tem falado pouco diz respeito ter\u00e1 a ver com as tens\u00f5es crescentes entre o dom\u00ednio p\u00fablico e a esfera do privado ou privacidade. Existe (e quase achamos natural que exista) uma permanente e crescente vigil\u00e2ncia de um ESTADO PAN\u00d3PTICO, registando bom n\u00famero de movimentos e ac\u00e7\u00f5es dos cidad\u00e3os, com utiliza\u00e7\u00e3o de uma parafern\u00e1lia de instrumentos t\u00e9cnicos cada vez mais dispendiosas e sofisticados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existem enormes bases de dados como componentes importantes do exerc\u00edcio do poder pol\u00edtico moderno, legalmente consentidos ou n\u00e3o e que colhem a aceita\u00e7\u00e3o ou indiferen\u00e7a de bom n\u00famero de pessoas, j\u00e1 que paralelamente existe uma estrat\u00e9gia de CONTROLE SOCIAL, baseada numa insistente difus\u00e3o publicit\u00e1ria da exist\u00eancia de amea\u00e7as, bem como da necessidade de gerir o medo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nestes termos a esfera privada esta sendo capturada pelo p\u00fablico, ou se quisermos est\u00e1-se implementando uma clivagem acentuada entre o p\u00fablico e o privado, gerando uma situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica que no limite por\u00e1 em causa a democracia e a liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um Grande Abra\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fernando Casqueira<br \/>\nR:.I:. 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