{"id":1974,"date":"2017-03-24T18:03:38","date_gmt":"2017-03-24T18:03:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.glup.pt\/?p=1974"},"modified":"2017-03-24T18:03:38","modified_gmt":"2017-03-24T18:03:38","slug":"o-imaginario-ecumenico-de-portugal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.glup.pt\/web\/?p=1974","title":{"rendered":"O Imagin\u00e1rio Ecum\u00e9nico de Portugal"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">O Universo Mitol\u00f3gico Portugu\u00eas como &#8220;contributo&#8221; (para) e &#8220;reserva&#8221; do Universo M\u00edtico da Europa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 &#8211; O presente texto apresenta-se como simples documento de trabalho, assumido como mero complemento a uma reflex\u00e3o mais ampla, sobre o fundamento antropol\u00f3gico, hist\u00f3rico, m\u00edtico, ritual\u00edstico, do complexo imagin\u00e1rio portugu\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">-N\u00e3o terei a preocupa\u00e7\u00e3o, por agora, de imprimir qualquer ordenamento l\u00f3gico, sequencial, de factos importantes do nosso imagin\u00e1rio, pela simples raz\u00e3o de que as ideias, v\u00e3o surgindo na mente em avassaladora catadupa, sem que seja poss\u00edvel aprision\u00e1-las. S\u00e3o ideias &#8220;vadias&#8221; que, esvoa\u00e7am e diluem-se com uma rapidez tal, que torna imposs\u00edvel a sua apreens\u00e3o, por uma exasperante escrita demasiadamente lenta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 &#8211; Alguns pressupostos de partida:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">a) Dou acolhimento aos coment\u00e1rios que emergem na coletividade em que me integro, sobre a eventualidade de uma t\u00f3nica narrativa, algo excessiva, ou de uma impressividade hegem\u00f3nica, das met\u00e1foras de tradi\u00e7\u00e3o judaico &#8211; crist\u00e3, adotadas nas nossas pr\u00e1ticas formais. N\u00e3o se denega a dimens\u00e3o universalista e ecum\u00e9nica, das atitudes e valores humanistas (inspirados naquela tradi\u00e7\u00e3o), constantemente reiterados, nem t\u00e3o pouco a sua possibilidade de operacionaliza\u00e7\u00e3o, numa excelente pedagogia, cada vez mais necess\u00e1ria, nos nossos dias de extrema materializa\u00e7\u00e3o, gan\u00e2ncia e hedonismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">b) Mas tamb\u00e9m, apoio sem reservas as orienta\u00e7\u00f5es e conclus\u00f5es, veiculadas por uma pl\u00eaiade de estudiosos nacionais e estrangeiros, que abordando uma &#8220;nova&#8221; perspetiva da hist\u00f3ria, n\u00e3o redutoramente positivista, determinista e racionalista, como fizeram (e fazem) os historiadores cl\u00e1ssicos (reumaticamente sentados e dormitando nas suas poeirentas cadeiras das Academias), se colocam marginalmente fora das redu\u00e7\u00f5es diacr\u00f3nicas, indagando aquilo que nos factos culturais, existe de profundamente humano, arquet\u00edpico, nos dinamismos simb\u00f3licos e m\u00edticos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">c) Essa abordagem cient\u00edfica alternativa, transdisciplinar, aberta \u00e0 complexidade plural da psique e da cultura poder\u00e1, todavia, ir ao encontro de uma &#8220;ci\u00eancia \u00fanica do Homem&#8221;, ou daquilo que existir\u00e1 afinal, de unit\u00e1rio no ser humano, transcendente a qualquer relativismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">d) Mas este posicionamento, implica igualmente colocar em evid\u00eancia aquilo que \u00e9 espec\u00edfico e caracterizador dos sujeitos da hist\u00f3ria, na sua a\u00e7\u00e3o pluridimensional, no contexto das diferentes sociedades hist\u00f3rica e geograficamente condicionadas (pol\u00edticas, econ\u00f3micas, sociais, culturais, religiosas, art\u00edsticas ou outras).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">e) Assim, no que refere ao &#8220;complexo mitol\u00f3gico portugu\u00eas&#8221;, ao mesmo tempo que se reitera um amplo e abrangente potencial heur\u00edstico e hermen\u00eautico, articulando o longo processo cultural (mitol\u00f3gico e arquet\u00edpico) do nosso imagin\u00e1rio profundo, possui ainda, uma enorme riqueza est\u00e9tica, c\u00e9nica e teatral nas eventuais atualiza\u00e7\u00f5es rituais. Acresce, para al\u00e9m disso, a constante afirma\u00e7\u00e3o dos mesmos princ\u00edpios e valores, afinal, em tudo id\u00eanticos (no seu humanismo, na flexibilidade adaptativa, \u00e9tica e mora), aos adotados na nossa constitui\u00e7\u00e3o (Anderson).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">f) Facilmente se apreender\u00e1, que o vasto complexo m\u00edtico-simb\u00f3lico-ritual\u00edstico, de Portugal, cuja especificidade estrutural, evolutiva e operativa, \u00e9 indiscut\u00edvel, mostra-se igualmente, ecumenicamente abrangente, fazendo parte sem reservas, do imagin\u00e1rio europeu. Est\u00e1, com efeito, presente, tanto nas narrativas m\u00edticas dos diversos pa\u00edses, como nos respetivos pragmatismos ritual\u00edsticos, embora recobertas de formas metaf\u00f3ricas muito diferenciadas. S\u00f3 para dar um exemplo: o mito Seb\u00e1stico do regresso do rei da sua ilha Encantada, tem sua conota\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, com o mito celta do regresso do Rei Artur, da ilha de Avalon. N\u00e3o \u00e9 admiss\u00edvel, portanto, a ideia (em alguns) de que a &#8220;bacia sem\u00e2ntica&#8221; do universo m\u00edtico de Portugal, tenha escassa abrang\u00eancia, porque apenas, localmente situada!!!. (A bibliografia de que j\u00e1 dispomos, no presente, \u00e9 imensa desmentindo claramente aquela asser\u00e7\u00e3o). Isto permite colocar a hip\u00f3tese de um isomorfismo m\u00edtico-simb\u00f3lico relativamente a Portugal e outros pa\u00edses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">g) EM S\u00cdNTESE: O RITO PORTUGU\u00caS CONFIGURA UM RITO EUROPEU ADOPT\u00c1VEL N\u00c3O APENAS A DEZ MILH\u00d5ES DE PORTUGUESES, MAS IGUALMENTE EXTENS\u00cdVEL AOS OUTROS ID\u00caNTICOS MILH\u00d5ES DA DI\u00c1SPORA PORTUGUESA, para n\u00e3o mencionar ainda, as outras dezenas de milh\u00f5es de cidad\u00e3os, que identit\u00e1ria e afetivamente, por la\u00e7os hist\u00f3ricos, culturais familiares ou outros, se encontram (mais que n\u00e3o seja, ainda que remotamente) ligados a Portugal e ao seu imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">h) Os Temas e pistas de investiga\u00e7\u00e3o integrando a mitografia portuguesa (e que se atualizam algures, em rituais populares\/eruditos), s\u00e3o in\u00fameros: Citemos como meros exemplos, os mitos fundacionais da Na\u00e7\u00e3o Portuguesa (Viriatino e Afonsino), as narrativas sobre os nossos v\u00e1rios lugares m\u00e1gicos e religiosos; a saga portuguesa dos Descobrimentos e as analogias com a demanda do Graal; as extraordin\u00e1rias proezas do hero\u00edsmo navegador; os milagres e as manifesta\u00e7\u00f5es do sagrado; os nossos int\u00e9rpretes e protagonistas dos Fidelli d&#8217;Amore e o 515; a Cavalaria Espiritual e o Templarismo; o culto de Santa Isabel, do Esp\u00edrito Santo e a revolu\u00e7\u00e3o Franciscana; a arte Cisterciense e Manuelina; as diversas formas do mito Seb\u00e1stico, o Quinto Imp\u00e9rio e o Imp\u00e9rio Portugu\u00eas; as Ordens Religiosas Militares e o contacto de culturas na liga\u00e7\u00e3o Ocidente e Oriente; as evoca\u00e7\u00f5es de personagens relevantes estudiosos incans\u00e1veis da tem\u00e1tica: (artistas, poetas, literatos, fil\u00f3sofos, cavaleiros, pensadores) :Lima de Freitas, Fernando Pessoa, Cam\u00f5es, D. Dinis , Santa Isabel, D. Jo\u00e3o de Castro, Fern\u00e3o \u00c1lvaro do Oriente, Duarte Pacheco Pereira, Gil Vicente, Infante D. Henrique, Regente D. Pedro, Jo\u00e3o II, Padre Ant\u00f3nio Vieira, Marqu\u00eas de Pombal, Ant\u00f3nio Teimo, Sampaio Bruno, Ant\u00f3nio Quadros, Agostinho da Silva e dezenas de outras).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">i) Apenas algumas notas sobre um outro mitema importante para n\u00f3s, ou seja, o mito Pombalino: os prim\u00f3rdios da sua instaura\u00e7\u00e3o remetem para a exalta\u00e7\u00e3o e culpabiliza\u00e7\u00e3o da figura do Marqu\u00eas, surgido desde logo no reinado de D MARIA I (viradeira) na sequ\u00eancia da querela (que se prolonga at\u00e9 aos nossos dias). Mas \u00e9 no decurso dos s\u00e9culos XIX e XX, que os debates sobre o papel pol\u00edtico e reformista, do Marqu\u00eas assumem invulgar dimens\u00e3o nacional e at\u00e9 internacional. Durante todo o s\u00e9culo XIX as classes pensantes dividiam-se em dois grupos bem distintos (filo pombalinos como o ministro Sousa Coutinho e anti pombalinos como o Visconde de Vila Nova da Cerveira. O protagonismo do Marqu\u00eas foi, pelos primeiros, sistematicamente valorizado e entendido como o advento de um regime e de uma nova ordem social, abalando e destruindo uma estrutura absolutista e clerical lida como respons\u00e1vel pelo nosso pungente atraso. No processo hist\u00f3rico da implanta\u00e7\u00e3o do regime liberal, a ma\u00e7onaria foi determinante na constru\u00e7\u00e3o da imagem do &#8220;her\u00f3i &#8220;restaurador do orgulho e prest\u00edgio de Portugal, abrindo portas ao progresso e \u00e1 felicidade. N\u00e3o existem provas irrefut\u00e1veis da sua perten\u00e7a \u00e0 Augusta Ordem, mas o papel determinante no controlo e cerceamento do poder e privil\u00e9gios, da classe clerical, a sua pol\u00edtica antijesu\u00edtica e antiultramontana, pareceu no s\u00e9culo XIX, que estaria em rela\u00e7\u00e3o com um patroc\u00ednio de um ide\u00e1rio secularizante e laicista, que a ma\u00e7onaria e posteriormente, os republicanos, tentaram implementar. S\u00e3o exemplo disso as grandes comemora\u00e7\u00f5es do centen\u00e1rio em 1882 e a implanta\u00e7\u00e3o na Rotunda do Grandioso Monumento (1934), a Carvalho e Melo. Nessa perspetiva poderemos considerar estamos perante o mito heroico e luminoso, mito pessoal, cuja constru\u00e7\u00e3o obriga a expurgar factos hist\u00f3ricos que se mostrariam pouco adequados a tal processo mitificante. Mito pessoal e transtemporal constru\u00eddo gradualmente pela Ma\u00e7onaria, pelos movimentos laicistas e anticlericais fazendo de Pombal um Prometeu abrindo o pa\u00eds ao progresso, \u00e0 ilustra\u00e7\u00e3o e ao conhecimento, morte ao obscurantismo e ao fanatismo. Enfim uma &#8220;renova\u00e7\u00e3o&#8221;, restaurando uma Idade do Ouro perdida, reencontrando o mesmo sentimento de gloriosas \u00e9pocas precedentes (\u00e9poca do Renascimento e das Descobertas). No imagin\u00e1rio coletivo a imagem mitificada de POMBAL, PODE FUNCIONAR COMO MOTOR MOBILIZADOR E REVITALIZADOR PARA A AC\u00c7\u00c3O, papel que j\u00e1 aludimos de in\u00edcio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 &#8211; Por isso reiteramos a presen\u00e7a necess\u00e1ria dos mitemas (complexos m\u00edticos) portugueses, na estrutura\u00e7\u00e3o do RITO e na implementa\u00e7\u00e3o dos RITUAIS (L\u00f3gica estrutural, proposta sequencial de epis\u00f3dios, organiza\u00e7\u00e3o dos diversos scriptos e textos explicativos, cenariza\u00e7\u00e3o, log\u00edstica, etc.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 &#8211; Exemplifiquemos melhor, chamando \u00e0 colac\u00e7\u00e3o o complexo processo m\u00edtico, da IDADE DO OURO:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">a) O tema est\u00e1 presente no universo imagin\u00e1rio universal e claro est\u00e1, integra a mitografia portuguesa conotando em \u00faltima an\u00e1lise, com a representa\u00e7\u00e3o de uma narrativa de esperan\u00e7a, face \u00e0s infelicidades e insufici\u00eancias da quotidianidade, \u00e0s vicissitudes que amea\u00e7am a exist\u00eancia, a expectativa nost\u00e1lgica de um futuro promissor (&#8220;que vir\u00e1 um dia&#8221;).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">b) Tem origem numa tradi\u00e7\u00e3o muit\u00edssimo mais antiga que a \u00e9poca cl\u00e1ssica, certamente origin\u00e1ria do extremo oriente, embora a tradi\u00e7\u00e3o Ocidental tenha atribu\u00eddo a origem, a Hes\u00edodo (s\u00e9c VIII, A.C.), o qual, na sua poesia, recorda uma hist\u00f3ria da humanidade, em que os Deuses teriam criado cinco ra\u00e7as de homens (ra\u00e7a de Ouro, Prata, Bronze, ra\u00e7a de her\u00f3is e ra\u00e7a de Ferro). A primeira Ra\u00e7a a ser criada &#8211; Ra\u00e7a de Ouro &#8211; os homens viviam sem preocupa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o conheciam nem desgostos nem mis\u00e9rias, n\u00e3o precisariam de trabalhar, apenas conheciam a paz e a felicidade, possu\u00edam toda a gama de bens, etc&#8230;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">c) Esta humanidade origin\u00e1ria, beneficiando da indulg\u00eancia divina, desaparecer\u00e1 sob a emerg\u00eancia de tempos cada vez mais dif\u00edceis nas idades seguintes, em degeneresc\u00eancia constante, at\u00e9 ao aparecimento da sinistra Idade do Ferro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">d) Estamos em presen\u00e7a de uma mem\u00f3ria coletiva que, vindo do fundo dos mil\u00e9nios, ir\u00e1 ser constantemente revivida ao longo de gera\u00e7\u00f5es, nas obras dos fil\u00f3sofos, pensadores, poetas, artistas. \u00c8 por demais conhecido o mito da Atl\u00e2ntida (ou a Utopia de Plat\u00e3o) ou \u00c9cloga de Virg\u00edlio. Todos ele tem especial interesse para n\u00f3s, nomeadamente, Virg\u00edlio igualmente protagonista na Divina Com\u00e9dia, guia solid\u00e1rio na caminhada inici\u00e1tica de Dante e por na Quarta \u00c9cloga, anunciar o nascimento de uma crian\u00e7a (antevis\u00e3o do nascimento judaico-crist\u00e3o de Jesus), vendo nesse acontecimento, o regresso a uma pr\u00f3spera felicidade da Idade do Ouro. (o menino Jesus \u00e9 o mensageiro do para\u00edso perdido e reencontrado.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">e) Hes\u00edodo, Plat\u00e3o Virg\u00edlio e imensos outros est\u00e3o no centro de um complexo conglomerado de conota\u00e7\u00f5es e significa\u00e7\u00f5es entrela\u00e7adas constituindo um patrim\u00f3nio m\u00edtico da humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">f) Ent\u00e3o, a Idade do Ouro evocando um passado long\u00ednquo, (uma meta hist\u00f3ria), um tempo origin\u00e1rio do devir humano, inscreve-se afinal num tempo circular de um eterno retorno, abrindo caminho \u00e0 esperan\u00e7a de um renascimento atrav\u00e9s do aparecimento de um personagem providencial ou um acontecimento especial (pensemos no messias, nos nossos D. Sebasti\u00e3o, Jo\u00e3o IV, Sid\u00f3nio Pais, Salazar e at\u00e9 acontecimentos especiais como a nossa ades\u00e3o \u00e0 Comunidade Europeia).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">g) A Idade do Ouro, (pag\u00e3o, pr\u00e9-crist\u00e3o, ou o para\u00edso crist\u00e3o) interpenetrando as diversas texturas narrativas, despoletam um prodigioso imagin\u00e1rio no nosso processo cultural (Portugu\u00eas e Europeu), detet\u00e1vel nas prodigiosas realiza\u00e7\u00f5es culturais da nossa civiliza\u00e7\u00e3o: Belas-Artes, Letras, Poesia, Belo-Canto Arquitetura (Rom\u00e2nico, g\u00f3tico, renascen\u00e7a, barroco, etc.) materializando e rememorando as aspira\u00e7\u00f5es a um reencontro num futuro que se aproxima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">h) O universo m\u00edtico n\u00e3o \u00e9 suscet\u00edvel de ser apreendido pelas categorias pr\u00f3prias do pensamento positivo racional-pr\u00e1tico t\u00edpico do conhecimento cientifico da modernidade. A &#8220;verdade&#8221; do mito, n\u00e3o \u00e9 uma verdade literal, pois que integrando o maravilhoso e o inveros\u00edmil, n\u00e3o se contem na linearidade do tempo hist\u00f3rico, nem na espacialidade de um espa\u00e7o determinado. Rompendo com o tempo e com o espa\u00e7o o seu valor, conota a eternidade e o infinito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">i) Os indiv\u00edduos desde sempre, n\u00e3o enfrentam o mundo apenas providos do conhecimento objetivo e positivo, ele igualmente usa e interioriza, o complexo das suas faculdades plenas (necessidades, aspira\u00e7\u00f5es, desejos, mem\u00f3rias, imagina\u00e7\u00e3o, emo\u00e7\u00f5es, sentimentos, atribui\u00e7\u00e3o de sentidos \u00e1s suas experiencias e coisas que ignora. O confronto do ser humano, com o mundo que ele habita, sempre o conduziu (sob as mais diversas formaliza\u00e7\u00f5es), a um &#8220;conhecimento para al\u00e9m do conhecimento&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">j) A Idade do Ouro, na sua conota\u00e7\u00e3o pans\u00e9mica (infinitas significa\u00e7\u00f5es) converge na evoca\u00e7\u00e3o de um tempo glorioso, substituto de um tempo hist\u00f3rico, vis\u00edvel, finito, imperfeito na sua operacionaliza\u00e7\u00e3o instrumental. Os seres humanos buscam percecionar um outro espa\u00e7o-tempo origem e fim dos fen\u00f3menos para os quais ainda n\u00e3o existe nome, percecionar enfim o que est\u00e1 para al\u00e9m do diz\u00edvel e do vis\u00edvel<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">k) Na procura de uma verdade plena, os indiv\u00edduos designavam por GNOSE a possibilidade de aprofundar o conhecimento existencial, enquanto totalidade (envolvendo a vida, a conduta, o destino, a esperan\u00e7a de alcan\u00e7ar a luz espiritual). A experiencia Gn\u00f3stica, implica a insatisfa\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia humana, \u00e1 qual urgia dar novo sentido. A supera\u00e7\u00e3o do sentido da decad\u00eancia e de uma exist\u00eancia encerrada na imperfei\u00e7\u00e3o e no d\u00e9ficit de uma materialidade, exigia a concep\u00e7\u00e3o de uma escatologia, que desse corpo \u00e1 esperan\u00e7a de uma alternativa: uma IDADE do OURO.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">l) Lembro Breda Sim\u00f5es, evocando a ideia de Imp\u00e9rio, enquanto express\u00e3o da passagem do caos ao cosmos, exercendo o imperador a sua dimens\u00e3o de pont\u00edfice, entre uma emp\u00edria terrestre e a inteligibilidade c\u00f3smica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">m) A ideia de Imp\u00e9rio, acabar\u00e1 por significar o advento do Esp\u00edrito na perspetiva crist\u00e3; ou um advento prof\u00e9tico e apocal\u00edptico em JOAQUIM DE FIORE, mais o prolongamento da nostalgia, impl\u00edcita na Cidade de Deus de Santo Agostinho. Este no c\u00e9lebre tratado, contrap\u00f5e a imperfeita cidade dos homens \u00e0 gloriosa cidade de Deus: A Jerusal\u00e9m Celeste, em que a Igreja Universal prefigura a cidade dos justos prometida pelos profetas. Mas para ele, essa cidade dos justos n\u00e3o se situa nos fins dos tempos: ele j\u00e1 existe, como tamb\u00e9m j\u00e1 existe essa Idade do Ouro: no CORA\u00c7\u00c3O dos HOMENS de BOA VONTADE. Nesta perspetiva, existe uma esperan\u00e7a, se se admitir que se pode reviver essa Idade do Ouro, nos interst\u00edcios da Idade do Fero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existe uma osmose (que aqui n\u00e3o trataremos) entre as idades Joaquimitas (Pai, Filho e Esp\u00edrito Santo, os cinco Imp\u00e9rios que se sucedem (S\u00edrio, Persa, Grego, Romano&#8230;e o advento e um quinto imp\u00e9rio&#8230;que mais tarde se afirmaria (acreditaria\/ demonstrar-se-ia), ser o portugu\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">n) A \u00e9poca medieval reconhece-se no ideal mon\u00e1stico (o mosteiro era a representa\u00e7\u00e3o miniatura da Jerusal\u00e9m Celeste), na comunh\u00e3o contemplativa e nas normas da cavalaria e da cruzada. O Renascimento, inspirado na Antiguidade, deixa apreender-se no sonho de uma Idade do Ouro, patente nas academias humanistas ou no ideal pastoril, protestando contra a hegemonia da imperfei\u00e7\u00e3o, insufici\u00eancia, corrup\u00e7\u00e3o e mentira, da civiliza\u00e7\u00e3o urbana. Possu\u00edmos suficientes exemplos de poetas, que exaltam a vida simples, em contacto com a natureza, em tudo evocando uma utopia regressiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5-Este mito imemorial da Idade do Ouro, inscrevendo-se nos resqu\u00edcios mais profundos da mentalidade Indo-europeia, impregna igualmente, profundamente, a sensibilidade deste nosso povo ancestral de Portugal, at\u00e9 aos dias de hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6 &#8211; S\u00e3o detet\u00e1veis mitemas (pequenas unidades significativas cujo conjunto constituem o Mito), essenciais do Mito da Idade do Ouro:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">-O mitema do rei cujo regresso \u00e9 aguardado como salvador, a um pa\u00eds doente alquebrado. Da simbologia associada ressalta a &#8220;arvore seca&#8221; t\u00e3o vis\u00edvel em alguns dos nossos monumentos (Convento de Cristo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">-O mitema do rei escondido numa ilha ou montanha (O rei Artur em Avalon, ou o reino escondido do Prestes Jo\u00e3o);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">-O mitema do rei proveniente de um pa\u00eds outrora, de conc\u00f3rdia, abund\u00e2ncia, riqueza e paz. Estamos perante o arqu\u00e9tipo da cidade feliz, da Terra Prometida, da concretiza\u00e7\u00e3o na terra da Jerusal\u00e9m Celeste.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">-O mitema do regresso do rei, da &#8220;ressurrei\u00e7\u00e3o&#8221;, investido de um caracter taumat\u00fargico e que coincide com a taumaturgia cr\u00edtica paracl\u00e9tica. Aqui a articula\u00e7\u00e3o com a &#8220;questa&#8221; (ou demanda e posse) do Graal, o qual por ser iluminado e iluminante, se associa ao Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">-Os precedentes referencias sobre o Mito da Idade do Ouro, reenviam para outras estruturas m\u00edticas, realimentando-se mutuamente: O Mito Seb\u00e1stico; O Mito Isabelino da Transmuta\u00e7\u00e3o\/ Transforma\u00e7\u00e3o Alqu\u00edmica? O Templarismo e o Mito da Cavalaria Espiritual; O Mito da Demanda e dos Descobrimentos&#8230; e muito mais. Nesta perspetiva, todas elas, n\u00e3o ser\u00e3o mais que partes essenciais dos mitemas em que se funda a extrema riqueza e complexidade da tradi\u00e7\u00e3o m\u00edtico-espiritual portuguesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">-Muitos investigadores na esteira de Fernando Gil (Modos de Evid\u00eancia (1998, atribuem ao Mito um estatuto epistemol\u00f3gico de &#8220;Alucina\u00e7\u00e3o Mental&#8221; ou processo alucinat\u00f3rio da consci\u00eancia, ou seja, um fundamento categ\u00f3rico da cren\u00e7a, que como tal, n\u00e3o necessita ser provada. O Mito assim concebido, \u00e9 algo intuitivo e n\u00e3o experimental e que no caso de Portugal se integrou plenamente na nossa hist\u00f3ria colectiva. Com efeito, figuras proeminentes da nossa hist\u00f3ria, como por exemplo, D. Jo\u00e3o de Castro (neto do vice-rei) ou o padre Ant\u00f3nio Vieira face a terr\u00edveis adversidades pol\u00edticas e sociais (desaparecimento ou morte do rei, perda independ\u00eancia e humilha\u00e7\u00e3o patri\u00f3tica perante o dom\u00ednio castelhano, cruzam as suas narrativas com mitos pr\u00e9-crist\u00e3os previamente existentes, o mito celta do rei Artur, o mito milenarista de Joaquim de Fiore e o mito do Encoberto e do Quinto Imp\u00e9rio integram um processo de hibridismo (e\/ou sincretismo) ?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em qualquer dos casos, opera-se uma suspens\u00e3o e desqualifica\u00e7\u00e3o do tempo hist\u00f3rico decadente, substituindo-o por um tempo m\u00edtico que a todo o momento pode ser reativado. Opera-se ent\u00e3o, uma esp\u00e9cie de catarse coletiva, com recurso a um mecanismo compensat\u00f3rio, em ordem \u00e0 estabiliza\u00e7\u00e3o e supera\u00e7\u00e3o do (s) conflito(s) na mente individual e coletiva. O mito assim, surge como um acto de criatividade, ou acto coletivo on\u00edrico, delirante, superando pelo sonho o sentimento de um profundo mal-estar dos portugueses que n\u00e3o encontram explica\u00e7\u00e3o racional e l\u00f3gica, para o permanente estado de d\u00e9ficit geral da na\u00e7\u00e3o (econ\u00f3mico, pol\u00edtico, educacional, militar, etc.) e de insucesso, a que por v\u00e1rias vezes, ao longo da nossa hist\u00f3ria, as nossas elites desde o s\u00e9culo XVII, nos t\u00eam conduzido. Os cidad\u00e3os projetam essa explica\u00e7\u00e3o alucinat\u00f3ria, para o dom\u00ednio da Provid\u00eancia divina e do messianismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eduardo Louren\u00e7o, (no dizer de Miguel Real) definia o mito seb\u00e1stico, como o &#8220;m\u00e1ximo de exist\u00eancia irrealista de Portugal&#8221; &#8230; e tamb\u00e9m, como o &#8220;m\u00e1ximo de coincid\u00eancia com o nosso ser profundo&#8230;&#8221;. Mas aten\u00e7\u00e3o! O mito possui igualmente uma vertente positiva. Pode constituir um potente motor para a ac\u00e7\u00e3o, para a supera\u00e7\u00e3o do torpor e do drama, para a procura determinada e corajosa do sucesso (v. os Descobrimentos, a Restaura\u00e7\u00e3o, as lutas Liberais, a Di\u00e1spora Portuguesa, etc.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com um enorme abra\u00e7o do FC.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Universo Mitol\u00f3gico Portugu\u00eas como &#8220;contributo&#8221; (para) e &#8220;reserva&#8221; do Universo M\u00edtico da Europa. 1 &#8211; O presente texto apresenta-se como simples documento de trabalho, assumido como mero complemento a uma reflex\u00e3o mais ampla, sobre o fundamento antropol\u00f3gico, hist\u00f3rico, m\u00edtico, ritual\u00edstico, do complexo imagin\u00e1rio portugu\u00eas. -N\u00e3o terei a preocupa\u00e7\u00e3o, por agora, de imprimir qualquer ordenamento 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